Crusoé: Os relatórios confidenciais da J&F

Crusoé teve acesso com exclusividade a relatórios sigilosos produzidos por uma auditoria interna da J&F, controladora da JBS. Até agora inédito, o calhamaço de 525 páginas é o resultado de investigações contratadas pela própria holding, em 2019, no cumprimento de uma condição imposta pelo Ministério Público Federal para a celebração do acordo de leniência da empresa, no âmbito da Operação Greenfield. Para se ter uma dimensão da importância do material, a J&F, aparentemente incomodada com o desenlace da auditoria que ela mesma contratou, destituiu em maio deste ano o grupo responsável por acompanhar a produção dos relatórios. Isso à revelia do MPF, que acionou aJustiça Federal em Brasília, alegando desobediência aos termos da leniência. No lugar dos demitidos, a J&F escalou nomes de sua estrita confiança – um deles já era advogado da holding.

A’ época, a decisão da J&F de dissolver o conselho responsável pela auditoria ainda estava revestida de mistério. Agora, tudo começa ficar ma is claro. A

documentação obtida por Crusoé, que integra o acordo de leniência da empresa com o MPF, revela que a companhia om itiu informações importantes à Justiça em sua delação à Procuradoria-Geral da República, como a relação nada republicana com a desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do TRF-1, e a existência de uma rede bilionária de contas de propina no exterior, o que pode colocar em xeque o acordo de colaboração premiada. Há ainda novos detalhes de repasses feitos a ministros do atual governo e ao Instituto Lula. Dos papéis, estão ausentes explicações sobre os pagamentos do grupo ao ex-advogado da famíl ia Bolsonaro, Frederick Wassef – os repasses foram revelados por Crusoé, em agosto.

A desembargadora e o pedido de emprego para uma parente

Segundo a auditoria interna da J&F, às 14h do dia 28 de junho de 2016, a desembargadora Maria do Carmo Cardoso encaminhou de seu e-mail funcional

do Tribuna l Regional Federa l da 1aRegião um pedido pessoa l ao chefe do jurídico da J&F, Francisco de Assis e Silva. “Caro Dr. Francisco(…) Creio que Renata (Gerusa Prado de Araújo, filha da magistrada) já tenha lhe falado sobre Nayara, irmã de Najla, mãe da m inha netinha. A jovem recém-formada em veterinária que está se candidatando a uma vaga no complexo industrial da JBS. Conto mais uma vez com seu apoio”, encerrou a desembargadora, afetando intimidade com o então diretor jurídico da J&F e dando a entender que ele já havia lhe feito favores em outras ocasiões. De acordo com os documentos internos, Francisco de Assis repassou a mensagem da magistrada ao então presidente da Divisão de Carnes da JBS, a quem caberia acionar a direção de Recursos Humanos. “Me ajude nisso que é importante”, escreveu. Ainda no corpo do mesmo e-mail, o diretorjurídico fez outro pedido, dessa vez em tom de alerta: “Manda apenas o CV (currículo). Cuidado com parte do e-mail”, afirmou, deixando claro que não gostaria que a mensagem enviada pela magistrada chegasse ao conhecimento do diretor da área de Recursos Humanos.

Zanone FraissaUFolhapress

O advogado Dorvil Vilela Neto, que representa a ministra Tereza Cristina, afirmou à reportagem que “a produtora rural Maria Manoelita [mãe da ministra], e depois seu espólio, celebrou negócios com o nomeado grupo, os quais foram encerrados em âmbito judicial, quando todos os débitos que o espólio possuía com a outra parte foram devidamente quitados, inclusive com comprovação nos processos e homologação do Poder Judiciário”. “Eram negócios privados do espólio da mãe da ministra e que, portanto, não tinham qualquer relação com a atividade pública da filha”, disse.

Nas suas investigações, os auditores também cruzaram planilhas de propinas entregues pelos delatores à PGR com o caixa da holding e, com isso,

conseguiram confirmar pagamentos a intermediários e a empresas ligadas a outros políticos graúdos. Foi o caso, por exemplo, dos repasses da JBS ao advogado Erick Wilson Pereira, a quem caberia fazer a ponte com o atual ministro das Comunicações, Fábio Faria. Essa é uma situação que se distingue da anterior, envolvendo a ministra Tereza Cristina, uma vez que esse trecho da auditoria apenas reforça o que já consta do acordo de colaboração premiada da

JBS – ou seja, pode não complicar a empresa, mas pode complicar o ministro.

Erick Wilson Pereira aparece na delação de Ricardo Saud, ex-diretor de Relações Institucionais da J&F. Saud disse ter repassado 1Omilhões de reais em propina para Fábio Faria e seu pai Robinson Faria, ex-governador do Rio Grande do Norte. Parte desse valor por meio de Erick Wilson Pereira e o restante por interméd io de empresas ligadas à fam íl ia Faria. Em setembro de 2018, a investigação sobre o atua l ministro foi arquivada pela ex-procuradora-gera l, Raquel Dodge. “Em duas ocasiões, a ministra Rosa Weber e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, em concordância com a PGR, reiteraram decisão de arquivamento do processo”, argumentou Fábio Faria por meio de sua assessoria. Ocorre que as transferências a empresas associadas ao clã Faria foram confirmadas pela auditoria. Bem como o repasse de ao menos 1,5 milhão de reais para Fábio Faria via o advogado Erick Wilson Pereira.

3.2.5.1 Perdão de Valores

Ao analisar as compras fictícias de gado. o Time de lnvest1gaçao se deparou com uma operação envolvendo o Espólio de Mana Manoelita A L. C. Costa (“Espólio”). A Sra Maria Manoehta era mãe da Sra. Tereza Cnstina Corrêa da Costa Dias (“Tereza Cristina Dias “), atual Ministra da Agricultura.

A Companhia, em 16 de outubro de 2012, celebrou com o referido Espólio um contrato de adiantamento para aquisição de gado. no valor de R$100.000,00. Este contrato foi posteriormente rescindido. Todavia. o Espólio somente

Auditoria daj&F menciona contrato para aquisição de gado com a mãe da ministra Tereza Cristina

 

Repasse não justificado ao Instituto Lula

Entre os anos de 2007 e 2017, aJ&F teria registrado, em seu caixa, mais de 14 bilhões de reais como “outras contas a pagar”. Questionada pelos auditores, a holding diz que o termo fazia referência “a fornecedores/prestadores de serviços (pessoa física ou jurídica) que não possuem cadastro no sistema, ficando a descrição de forma livre ao usuário que registra o pagamento”. Em meio a esses repasses, foi encontrado um pagamento de 2 milhões de reais ao Instituto Lula, que não está contemplado na delação da empresa. Joesley disse que a doação foi realizada a pedido de Paulo Okamotto, presidente do Instituto, depois de ele se encontrar pessoalmente com Lula pela primeira vez. A doação, segundo ele, teria sido regu lar e sem contrapartida. Mas, segundo os auditores, a “J&F não apresentou documentação suporte para o referido pagamento”. Procurado por Crusoé, Okamotto afirmou que, em 2013, um ano antes do repasse, buscou empresários para fazerem doações ao Instituto Lula. “Em 2013, a gente sabia que haveria eleição em 2014, e nós somos uma entidade que vive de doações de pessoas físicas e jurídicas. Então, para fazer um planejamento de trabalho é muito importante você ter um fundo, né?”.

 

 

Documento mostra doação da }85 ao Instituto Lula de 2 milhões de reais

As contas secretas da propina

As auditorias internas identificaram um emaranhado de contas e empresas de fachada com sede em paraísos fiscais, como o Panamá e Suíça, jamais reveladas

pelaJBS em sua delação à Procuradoria-Geral da República. Essas contas abasteciam doleiros usados para fazer pagamentos ilícitos no Brasil. A estrutura

societária composta por doze empresas que movimentavam valores vultosas recebe o nome de “The Nebbia Trust”. Associadas a ela, estão, por exemplo, três

empresas com o nome de “Unifleisch”. Recentemente, uma reportagem do Consórcio Internacional deJornalistas lnvestigativos mostrou que essa offshore despertou a atenção do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por ter realizado transações suspeitas no exterior. De acordo com os relatórios obtidos por Crusoé, uma “Unifleisch” foi usada como intermediária em importantes aquisições da JBS, como a da National Beef, que alcançaria a cifra de 560 milhões de dólares. A compra, no entanto, foi vetada pelo Departamento de Justiça americano, em 2008, em razão do seu efeito anticompetitivo. Outra aquisição intermediada pela empresa de fachada foi a do frigorífico Smithfield, no valor de 565 milhões de dólares – o negócio contou com o financiamento de mais de 900 milhões de reais do BNDES. Segundo delatores, os aportes contaram com o aval e a influência do ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, Guido Mantega.

Segundo as auditorias, 95% dos valores pagos pelaJBS à Unifleisch eram repassados a outras duas contas – a Valdarco e a Lunsville – usadas como caixa

para fazer repasses irregulares em esquemas da JBS no Brasil. Interrogado pela equipe de auditores, um dos executivos da J&F, Demilton de Castro, reconhece:

“As vendas existiam, eram pagas comissões para a Unifleisch, que repassava parte desse dinheiro para a conta da Valdarco, parte para a Lunsville. Quando eu


precisava de dinheiro em espécie eu recorria ao doleiro. As vezes ele me

mandava o valor em espécie aqui no Brasil e eu transferia para eles em contas no exterior”.

Toda esta estrutura de contas bancárias na Suíça e de empresas no Panamá foi objeto de questionamento à cúpula da J&F. No entanto, segundo o relatório,

“nem mesmo os Srs. Joesley Batista e Wesley Batista souberam esclarecer do que se tratava”. Joesley, em dado momento, alegou que uma das contas era de uso pessoal. “Conta minha, totalmente minha. Não me lembro exatamente o detalhe técnico, mas se não me engano era assim: era uma empresa aberta em meu nome, empresa sediada não sei onde… uma empresa de papel, uma ‘paper company’ vamos dizer assim, em meu nome. Abri a conta dessa empresa. Eu que assinava e era só tipo um reservatório de dinheiro”, disse.

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