Exclusivo: Joesley Batista por Eduardo Cunha

Eduardo Cunha é um galeão holandês:afunda atirando. Sua auto-biografia lançada pela editora Matrix é uma metralhadora giratória. Este site separou  as balas destinadas por Cunha a Joesley Batista.Confira:

 

Cheguei a São Paulo bem cedo naquele dia 23 de março. Minha única agenda oficial seria almoçar com a direção do SBT. Hospedei-me no hotel indicado. O ex-presidente havia marcado a conversa para as 10 horas. Antes recebi Joesley Batista, no mesmo local – sabendo que eu iria tratar com Lula, pediu-me para conversar antes, pois queria que eu sondasse sobre o nome que era defendido para a vaga no STF. 

Joesley me disse que tinha interesse na nomeação de Edson Fachin. Pedi para Joesley se retirar antes da chegada de Lula, para evitar constrangimento. O ex-presidente veio com um segurança, que o deixou na porta e saiu. Conversamos por duas horas sobre a conjuntura política. O tom era de aproximação. Eu não privava da relação dele. Lula, como sempre muito ponderado e com a exata dimensão da crise que existia, lamentou a postura de Dilma com relação a mim e julgou desnecessária a disputa havida pela presidência da Câmara. Ele falou sobre a falta de articulação política e, ainda, que queria que o PMDB participasse mais do processo, inclusive com mais papel no governo.

 

Falei a ele que não se tratava de cargos. Da minha parte, não queria nenhum. Tratava-se da forma de fazer política. O movimento de esvaziar o PMDB com a criação do novo partido de Kassab, com a sua fusão ao PSD, em articulação com Cid Gomes, tinha sido o grande erro do governo. Lula concordava, dizendo que era contrário a isso. Por ele, Mercadante sairia da articulação política, Levy não teria sido ministro da Fazenda, Chinaglia não teria sido candidato contra mim, Kassab não teria sido ministro das Cidades, tirando o cargo do PP, Pepe Vargas e Miguel Rossetto jamais seriam ministros. Ou seja, sentia que o governo não era o governo dele, mas tinha que lutar por ele, para que ele, Lula, não sofresse as consequências políticas dos erros do governo. 

Conversamos bastante sobre economia. Eu falei que estava assustado com as placas de “aluga-se” ou “vende-se” que via em todo lugar, nas janelas ou portas de imóveis por todo o Rio de Janeiro. Lula confirmou que essa imagem estava por todo lado em São Paulo também. Ele pediu ajuda para o ajuste fiscal. Eu disse que já o estava defendendo. Falamos sobre a Lava Jato e as denúncias de Janot. Explicitei minha desconfiança com relação a José Eduardo Cardozo, de quem Lula tinha verdadeiro pavor como pessoa, referindo-se a ele de forma agressiva. Tocamos no ponto da nomeação para o STF. E fiz a sondagem que Joesley havia me pedido. 

Lula respondeu que ainda não tinha discutido o assunto com Dilma, mas que defenderia alguns nomes, citando como exemplo o do ministro do STJ, Benedito Gonçalves, até por ser negro e que, como a vaga era de Joaquim Barbosa, negro, ele entendia que manteria a representação que tinha sido conquistada, quando ele nomeou o primeiro ministro negro no STF. 

Eu perguntei sobre Fachin, para atender Joesley. Lula me disse que já tinha, quando era presidente, tentado sugerir o nome dele, mas que recusou porque jamais nomearia um sindicalista para ministro do STF. Isso iria certamente dar um enorme prejuízo aos cofres públicos em decisões judiciais, já que ele acabaria ficando contra o governo por essa condição de sindicalista.

 

———————-

 

A questão da busca em gabinetes e instalações do Congresso é realmente muito duvidosa, e eu gostaria que tivesse ocorrido em minha gestão alguma busca que não fosse em cima de mim, para que eu pudesse reagir e até impedir sua realização, forçando uma discussão política para manifestação definitiva do plenário do STF. 

Como a primeira busca que veio na minha gestão era com relação a mim, eu fiquei sem condições políticas para fazer isso, pois pareceria estar agindo em causa própria. Foi feita uma sabatina na CCJ do Senado do indicado de Dilma para o STF, Edson Fachin, debaixo de rumores de que Renan estaria trabalhando contra a indicação dele – coisa que não acreditei, até porque teve a atuação anterior de Ricardo Lewandowski. 

Havia ainda a atuação de Joesley Batista, que, interessado na nomeação, estava acionando os senadores conhecidos dele, pedindo apoio. Isso era materializado pelo seu representante institucional perante o Congresso, Ricardo Saud. Renan não correria o risco de entrar em uma disputa dessas, pois se perdesse teria de enfrentar Fachin, relator do seu inquérito, sobre as despesas de uma filha fora do casamento terem sido supostamente pagas pela empreiteira Mendes Júnior. 

A sabatina de Fachin na CCJ tinha sido a maior sabatina de candidatos a ministro do STF em toda a história do Senado. Foram 12 horas. Isso em razão da identificação de Fachin com o PT e sindicatos, inclusive com o apoio público à campanha de Dilma em 2010, representando um grupo de juristas a favor da candidatura dela, em comício de campanha. 

O nome de Fachin acabou aprovado na CCJ. Mas Renan não levou imediatamente para o plenário. Ele marcou somente para a semana seguinte, dando razão aos boatos de que trabalhava contra a indicação de Fachin, embora pessoalmente eu não acreditasse.

 

——————— 

 

Naquela noite, Dilma fez um jantar no Palácio do Alvorada com grandes empresários, dentre eles Joesley Batista. Ele saiu do jantar e foi direto à residência oficial da Câmara, me relatar a conversa. Eu estava em reunião sobre o impeachment com vários deputados, dentre eles, Mendonça Filho, Fernando Filho, Rubens Bueno, Bruno Araújo e Rodrigo Maia.

Antes da reunião com os deputados sobre o impeachment, recebi o então presidente do BNDES, que estava convocado para depor na CPI do BNDES no dia seguinte, e me comprometi a ajudá-lo perante os partidos para que a CPI não atrapalhasse a atuação do banco. Embora fosse difícil lhe garantir como acabaria a CPI, tentaria ajudar.

Na própria reunião sobre o impeachment, pedi aos partidos de oposição um pouco de cautela com a CPI do BNDES, para evitar que se atingisse o setor produtivo e causasse o mesmo estrago que a operação Lava Jato estava causando.

A chegada de Joesley Batista, por acaso um dos empresários mais beneficiados com créditos do BNDES, atrapalhou a reunião. Ele sentiu que se tratava de impeachment, ficando de propósito para escutar algo, até que teve de sair para voltar para são Paulo, não sem antes relatar a íntegra do jantar, se divertindo com o estado de Dilma, perdida na administração da crise.

Após sua saída, retomamos a articulação. Já estava sendo organizado o mapa de todos os deputados, escalando quem iria ser responsável por cada abordagem. Também a presença de Joesley serviu para que alguns associassem o meu pedido sobre a CPI do BNDES à atuação do próprio empresário, o que, nesse caso, não seria verdade.

Quando eu estava para decidir a instalação dessa CPI, perguntei a Joesley Batista se ele tinha algum receio, para que eu tivesse ciência antes. Ele respondeu que não tinha qualquer receio, e me pergunto até hoje, depois de sua delação, na qual acusou membros do PT e do governo de terem recebido propinas referentes aos empréstimos do BNDES: por qual razão ele não tentou evitar a CPI?

Conhecendo hoje suas ramificações, ele talvez tivesse impedido a instalação da CPI, bastando para isso ter envolvido o PSDB, com Aécio Neves, que, se atuasse junto a mim, seria provável que a CPI não fosse instalada.

Esse mistério só reforça as muitas mentiras por ele contadas, a exemplo de vários delatores. Ninguém com culpa numa situação dessas brincaria em deixar andar, sem qualquer preocupação, uma CPI que envolveria de qualquer maneira a empresa dele, pelo volume de crédito obtido no BNDES. Joesley, seu sucesso e as suas mentiras, são fatos que merecem uma enorme reflexão de como a sociedade brasileira permite a formação de um conglomerado desses, debaixo de tanta história obscura e muito mal contada.

 

 

 

——————– 

No sábado, dia 19, Joesley Batista passou pelo Rio. Ele iria encontrar Aécio e me pediu que eu o encontrasse perto da minha casa, no aeroporto de Jacarepaguá, onde ele desceria com seu helicóptero. Fui encontrá-lo no hangar da Líder, nesse aeroporto. Em uma sala de reunião, Joesley queria saber sobre a articulação do impeachment, certamente preocupado com os grandes volumes de alavancagem das suas empresas em dólar.

Nesse momento, assistiu a uma ligação minha para Lula. Eu tinha pedido que a minha secretária o localizasse, para ver como ficaria a situação do vazamento do nosso encontro, já que a mídia desse sábado o dava como certo. Lula, no telefonema, me disse que não confirmaria o encontro se eu também não confirmasse, o que combinamos de fazer. Eu fiz isso, apesar da bronca de alguns jornalistas que me procuraram e queriam uma confissão minha.

Joesley queria saber minha real posição antes do encontro com Aécio, para que ele fizesse os seus arranjos. Mas, hoje, tenho a convicção de que a verdadeira razão era a especulação que ele fazia no mercado de câmbio às custas dessas informações políticas. Nessa brincadeira, Joesley ganhou verdadeiras fortunas na especulação cambial. Basta verificar suas posições à época para se comprovar isso.

 

 

 

—————–

 

Joesley tinha tirado a família de casa para evitar testemunhos do encontro. Então ele propôs que fôssemos almoçar na casa do irmão dele, Wesley Batista.

Lá almoçamos só nós três. Joesley, sabendo que eu ia encontrar Temer, pediu para que eu sondasse quem seria o ministro da Fazenda de um eventual governo dele. O empresário falou que, pelo que tinha compreendido da conversa com Lula, Temer estava na minha mão. Só haveria o impeachment se eu quisesse. Ou seja: não seria justo eu fazer o impeachment e não influenciar no futuro governo Temer.

Concordei que era óbvio que iria influenciar. Mas eu não faria nenhuma barganha com Temer sobre cargos. Joesley lembrou que Lula estava disposto a fazer Meirelles ministro da Fazenda de Dilma, caso ela se safasse do impeachment. Ponderou comigo que eu tinha de ter influência na nomeação da Fazenda, para evitar que o poder real fosse tomado pelo PSDB ou pelos grupos que eram também ligados a Temer. E me propôs que eu indicasse Meirelles. Temer já estava pensando no nome dele, mas ainda não havia decidido. Também argumentou que eu deveria interferir na escolha do Ministério da Justiça. Com razão, ele queria evitar que houvesse um novo Cardozo. Disse que sondaria Temer – e aproveitaria a conversa para delimitar certas situações, pois tinha já as demandas por cargos de alguns dos deputados.

Wesley disse ser contrário ao impeachment. Ele tinha medo de mudanças bruscas, que poderiam prejudicar o ambiente de negócios. Reagia com muita cautela. Eram posições diferentes. Joesley, mais malandro, estava mais preocupado em emplacar Meirelles – naquele momento trabalhando para ele, do que com o impeachment propriamente dito.

——————

 

A decisão do PP implicava a decisão do PR e do PSD, pelo acordo que tinham de agir em conjunto. A leitura era de que essa decisão definiria o impeachment. Quando cheguei à Câmara, recebi um telefonema de Joesley Batista, que já tinha me avisado de que passaria a semana em Brasília para ajudar no que pudesse. 

Joesley perguntou se eu aceitava trocar o encontro com Ciro da Câmara para a residência dele. Achei até melhor, para evitar o assédio da imprensa. Fui para lá. Cheguei antes de Ciro Nogueira. Joesley me antecipou que estava já fechado o apoio dele ao impeachment – já haviam tido uma conversa prévia. 

A relação entre Ciro e Joesley era de forte amizade. E o empresário também queria mostrar serviço, pela possibilidade de ter Henrique Meirelles como ministro da Fazenda.

(…)

Antes de sairmos, Joesley pediu um favor para mim e para Ciro. Ele estava particularmente preocupado com as suas posições do mercado de dólar futuro. Ele tinha sempre uma grande alavancagem em dólar – suas empresas eram exportadoras e tinham dívidas em moeda estrangeira. 

Com a certeza de que o impeachment estava em vias de aprovação, isso se refletia nos índices da Bolsa, em ascensão, e do dólar, caindo. Com receio de ter de se desfazer rapidamente de posições em dólar, com prejuízo, ele preferia segurar para realizar as transações mais à frente. Entretanto, para evitar o aumento do prejuízo, ele gostaria de uma sinalização de Temer ao mercado – de que a política cambial não iria sofrer nenhuma mudança em eventual governo dele. O objetivo era passar a imagem de que ele era favorável à manutenção de uma política de estímulo à exportação. 

Eu combinei que levaria o pleito a Temer, junto de Ciro, no café da manhã. Joesley agradeceu e disse que iria ficar em Brasília. Ele falou que iria ainda agendar outros encontros e que, se fosse necessário, me chamaria para participar. Respondi que estava à disposição.

—————-

Saí do Jaburu e liguei para Joesley. Ele me pediu que passasse na casa dele, que teria outra surpresa para mim. Fui direto. Chegando, encontrei Gilberto Kassab com ele. Kassab me relatou que já estava fechado com o impeachment e, se não estivesse, depois da pressão de Joesley fecharia. 

Eu perguntei por que ele não pedia demissão do ministério logo. Ele respondeu que tinha combinado assim com Temer, para evitar ter mais um cargo à disposição das negociações de Dilma – mas deveria fazer isso pouco antes da votação. Eu agradeci. Ele falou que a bancada de deputados iria se reunir à tarde e que ele compareceria. A expectativa era decidir pelo apoio ao impeachment. 

Depois que Kassab saiu, relatei a Joesley que Moreira Franco iria dar uma entrevista sobre a política cambial do futuro governo Temer. Disse também que não sabia se o mercado iria reagir a uma fala de Moreira – mas, de qualquer forma, em minha opinião, o mercado já estava com o impeachment precificado. Isso queria dizer que não haveria mais movimentações bruscas pela votação. 

Joesley então me fez uma revelação. A de que estava sendo pressionado pelo governo a arranjar dinheiro vivo para doar a eles, para que pagassem a deputados a fim de evitar o impeachment. Ele me disse que, como já tinha escolhido o lado favorável ao impeachment, iria enrolar os interlocutores para não dar nada para eles. Esse relato de Joesley era o mais forte de todos os que eu tinha recebido sobre o início de ofertas em dinheiro para que se votasse contra o impeachment. 

Em seguida, eu receberia outros relatos, mas nenhum com a credibilidade que Joesley tinha naquele momento – credibilidade essa que viria a tombar depois, pelos episódios de sua delação premiada e pelas covardes gravações que viria a fazer de conversa com Michel Temer.

 

 

———————–

 

Joesley Batista, após o encontro de Meirelles com Temer, me telefonou falando que viria ao Rio para conversar comigo, no domingo de manhã, de helicóptero. Ele me pediu um encontro e marcamos na sala do hangar onde ele desceria. Ele chegou ao encontro acompanhado de Henrique Meirelles. Queriam me agradecer. Meirelles aproveitou para debater os problemas que teríamos de enfrentar no país. 

Joesley recomendou que ele falasse comigo sobre tudo o que necessitasse. Eles sabiam que iriam depender de uma pauta legislativa. 

Meirelles me fez um apelo: que o ajudasse a evitar que eventual composição política colocasse dentro da equipe econômica alguém que atrapalhasse o trabalho. O medo dele tinha nome e sobrenome: José Serra. 

Disse a ele que ficasse tranquilo. Serra não ocuparia cargo algum na equipe econômica. Ele poderia ser ministro, mas caberia a Temer encontrar um lugar longe dos problemas que ele certamente criaria, caso fosse para a equipe econômica. Após a conversa, Joesley, demonstrando total autoridade sobre Meirelles, pediu a ele que o deixasse a sós comigo. Meirelles era, ainda naquele momento, o presidente do conselho da holding da família Batista, a J&F. Para que ele deixasse o posto, Joesley ainda teria de pagar uma multa milionária pela rescisão contratual, condição imposta por Meirelles a ele para assumir o Ministério da Fazenda. 

Para Joesley, esse pagamento, embora alto, era irrelevante. Ele passaria a ter um ex-funcionário no comando da economia do país. Sabia que essa despesa iria se tornar lucro rapidamente. Joesley me agradeceu bastante a nomeação de Meirelles. Falou que não teríamos nome melhor e mais leal do que o dele. Disse ainda que, se houvesse qualquer problema com ele, era só procurá-lo. Declarou-se muito feliz pela minha condução do processo, pelo impeachment, pela ajuda que poderia dar. Falou que não esperava, menos de uma semana após o impeachment, que Temer fosse cumprir o combinado. 

Ele chegou a pensar que Temer não cumpriria, pois o considerava meio fraco de palavra. Reiterei que em nenhum momento duvidei de que Temer cumpriria o combinado. 

Ele sabia que a minha atuação tinha sido responsável por levá-lo a ser o presidente da República. Depois, mais à frente, contudo, Joesley estaria certo com relação a Temer: ele não cumpriu o combinado comigo no meu processo de cassação.

 

Print Friendly, PDF & Email
error: