O Tesouro dos EUA analisa dados financeiros suspeitos sobre a JBS desde 2014: leia a caixa preta dos irmãos Batista

O Tesouro dos EUA analisa dados financeiros suspeitos sobre a JBS desde 2014

Autoridades americanas de combate à lavagem de dinheiro têm recebido denúncias de transações internacionais suspeitas da JBS desde 2014. Apenas 3 anos depois, em 2017, os irmãos Joesley e Wesley Batista, proprietários da empresa, fizeram um acordo de confissão de culpa no Brasil e revelaram crimes cometidos, incluindo a compra de políticos através do pagamento de propinas.

Os dados das transações financeiras da JBS constam dos registros chamados Suspicious Activity Reports (SARs) produzidos pela FinCen (Financial Crimes Enforcement Network), braço do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. O Tesouro dos EUA é semelhante ao Ministério da Economia do Brasil.

Criado em 1990, o FinCen é uma espécie de agência financeira que atua contra a lavagem de dinheiro, uso de recursos por grupos considerados terroristas e outros tipos de crimes monetários. No Brasil, o órgão equivalente seria o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), mas o FinCen tem muito mais poder.

Os documentos utilizados neste relatório foram obtidos pelo BuzzFeed nos Estados Unidos e compartilhados com o ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), que coordenou a investigação denominada “Arquivos FinCen” (Arquivos FinCen). Mais de 400 jornalistas de 110 veículos de comunicação de 88 países participaram da investigação.

EUA À FRENTE DO BRASIL

Os documentos disponibilizados agora servem para comparar o que os irmãos Batista fizeram e o que relataram às autoridades brasileiras quando entraram no acordo de contestação, que posteriormente teve pedido de rescisão apresentado pelo próprio Ministério Público e ainda aguarda decisão do Supremo Federal Tribunal.

Fica claro pela papelada que as agências de controle dos Estados Unidos estão muitos anos à frente de suas contrapartes brasileiras. Quando a JBS exibiu o comercial de Roberto Carlos na TV brasileira dizendo que ele havia voltado a comer carne em 2014, as autoridades americanas já estavam rastreando possíveis transgressões dos irmãos Batista. As primeiras suspeitas sobre a JBS foram levantadas pelas autoridades americanas no ano daquele comercial.

Nos documentos obtidos, fica evidente que algumas operações de duas empresas offshore relacionadas à JBS e seus proprietários (Lunsville e Valdarco, ambas com sede no Panamá) foram analisadas pela FinCen desde 2014.

O FinCen também cita uma empresa que atuava como representante comercial dos irmãos Batista para vender produtos da JBS na Europa, a Unifleisch – e que recebia comissões de aparentemente 3% pela prestação desse serviço.

NOVA EMPRESA: UNIFLEISCH

O Unifleisch era até então desconhecido pela mídia brasileira. Nada relacionado com Lava Jato ou as acusações contra Joesley e Wesley Batista surgiu quando alguém procurou na internet pelo nome desta empresa.

Poder360 apurou que a Unifleisch atuava como representante comercial da Bertin, comprada pela JBS em 2010. Essa conexão da Bertin com o mercado de exportação foi o que atraiu Joesley e Wesley Batista: eles queriam adquirir uma plataforma para vender os produtos JBS em outros países.

Após a compra do Bertin, os irmãos Batistas mantiveram os mesmos serviços de representação que o Bertin mantinha com a Unifleisch.

Essa empresa passou a fazer parte de um sistema utilizado por Joesleyand Wesley para cobrança irregular de parte dos recebíveis da JBS para exportação. Esse tipo de operação é descrito na alegação dos irmãos feita à investigação da Lava Jato em 2017.

O dinheiro sujo iria parar em empresas offshore no Panamá, antes de voltar limpo para o Brasil, por meio de doleiros, para pagamento de propinas. Isso foi confessado nas investigações brasileiras e conhecido do Ministério Público. Em 2017, o então administrador da JBS, DemíltonAntónio de Castro, explicou no anexo 41 da sua declaração que tais desvios ocorriam desde 2000.

Essencialmente, a Unifleisch repassou parte dos pagamentos de exportação da JBS para contas no Panamá (geralmente, 3%). Como a Unifleisch era responsável por uma representação comercial, a empresa depositou o dinheiro conforme determinação dos diretores da JBS. Esse dinheiro foi principalmente para Lunsville e Valdarco, no Panamá.

É interessante notar como isso expõe a fragilidade dos controles fiscais e financeiros no Brasil. O IRS poderia ter detectado no início da década de 2010 que a JBS não trouxe parte de seus ganhos externos de volta para sua sede. O COAF (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) também não fez nenhum alerta sobre o assunto. Enquanto isso, nos EUA, a FinCen já havia recebido dados sobre potencial lavagem de dinheiro ocorrida em 2011.

Os brasileiros só começaram a saber o que estava acontecendo depois do depoimento de Demilton António de Castro ao Ministério Público. No depoimento de Demilton de 2017, essas operações estão descritas no anexo 41 (onde se refere a Lunsville e Valdarco).

Após apresentar depoimento oral, Demilton apresentou ao Ministério Público as evidências materiais do que havia dito. Ele apresentou extratos bancários que indicavam transferências de dinheiro para as contas das duas empresas no Panamá (Lunsville e Valdarco). Naquele momento, o Ministério Público tomou conhecimento de que a Unifleisch era a originadora dessas transferências

O Poder360 confirmou com as autoridades que acompanham o caso que esses extratos bancários existem. Todos foram entregues ao Ministério Público pela JBS em meados de 2017 e o nome da Unifleisch está lá, como fonte de recursos para essas empresas em paraísos fiscais.

A Unifleisch também aparece em documentos de processos fiscais posteriores que a JBS enfrentou na Receita Federal. Segundo o Poder360, o fisco possui extratos bancários que identificam essas operações e sabem que a origem dos recursos é este representante comercial da Unifleisch.

Ao apresentar as declarações à Receita Federal, a JBS afirmou que a relação comercial com a Unifleisch se baseava na forma de “comissão legal” pelos serviços prestados.
ACHADOS DA FINCEN

O que há de novo em todos esses documentos FinCen?

A principal delas é que algumas autoridades nos EUA já sabiam muito sobre Joesley e Wesley Batista, com dados registrados desde 2011. Os primeiros alertas sobre a empresa datam de 2014.

A FinCen sabia exatamente como o representante comercial da JBS, Unifleisch, enviava parte do dinheiro legal das vendas da empresa brasileira ao exterior diretamente para empresas offshore no Panamá.

A FinCen cita várias operações que considerou suspeitas:

• US $ 633,9 milhões administrados pela Unifleisch: FinCen afirma que os dados do Barclays no Reino Unido, compartilhados com a agência do banco em Nova York e depois transformados em um alerta, indicam que a Unifleisch fez 859 transferências de dinheiro no período entre 6 de setembro de 2011, para 12 de abril de 2016. O valor total movimentado é de US $ 633,9 milhões (o relatório menciona o valor exato: US $ 633.944.525,20);
• US $ 212,6 milhões para Valdarco: montante transferido pela britânica Unifleisch UK para Valdarco entre setembro de 2011 e dezembro de 2014. As autoridades consideraram as transferências suspeitas porque não conseguiram encontrar o que Valdarco encontra. Aparentemente, nada mais é do que uma empresa de fachada, um veículo para transações financeiras;
• US $ 84,6 milhões para Lunsville: o outro offshore controlado pela JBS recebeu esse valor. As transferências foram feitas entre setembro de 2011 e dezembro de 2014;
• US $ 6,19 milhões para a Rondo: transferências foram feitas entre novembro de 2011 e abril de 2016. Os investigadores afirmam não saber o que a Rondo faz, pelo que consideraram a operação suspeita;
• US $ 2,07 milhões para Triple Talent Holding: a FinCen colocou bandeira amarela nesta transação porque a empresa que recebeu os recursos em outubro de 2015 é de Hong Kong, teve suas atividades encerradas e não há informações públicas sobre seu objeto comercial;
US $ 1,59 milhão para Pershing Limited Liability: esta operação foi considerada suspeita por ter sido realizada em setembro de 2015 a partir de um serviço prestado por uma empresa (Have Word Advisers) cujas atividades são desconhecidas;
• US $ 52 milhões para Antigua Investments: o banco no Reino Unido considerou esta transferência suspeita porque as atividades da empresa eram desconhecidas. Posteriormente, recebeu a informação de que a Antigua Investments era uma empresa de investimentos pessoais de José Batista Sobrinho, pai de Joesley e Wesley Batista;
• US $ 86.600 para a Unifleisch S A da Suíça – A inglesa Unifleisch enviou os recursos em outubro de 2015 para uma empresa de mesmo nome, apenas localizada na Suíça. O banco inglês colocou a transferência sob suspeita porque a origem dos fundos era desconhecida.
O que há de comum nesses movimentos é que todos eram para destinatários localizados em “jurisdições com alto risco de lavagem de dinheiro”. São fundos que mais tarde entraram no Brasil por meio de cambistas para pagar propinas a políticos e autoridades.

O relatório FinCen vai até 2016. Descreve muitos fatos que já são conhecidos. Mas, ao deixar claro que as autoridades nos EUA sabiam o que estava acontecendo, é mais fácil entender o que aconteceu.

Em 2016 (data do relatório mais recente conhecido do FinCen), os irmãos Batista e suas empresas já eram alvo de operações de busca e apreensão da Polícia Federal. No ano seguinte, eles decidiram denunciar – incluindo a gravação barulhenta de Joesley de uma conversa pessoal que ele teve com o então presidente Michel Temer, em 17 de abril de 2017.

Em retrospecto, também faz sentido que o chamado representante comercial Unifleisch no Reino Unido encerrou suas atividades em dezembro de 2016. Essa unidade, se alguma vez foi usada pelos irmãos Batista, estava em apuros pelo fato de o Barclays alertar FinCen.

Os irmãos Batista podem ter inferido que o esquema seria desmontado pelas autoridades.

Existem 5 relatórios nos Arquivos FinCen que detalham as transações financeiras das contas oficiais da principal empresa do Grupo J&F, a JBS SA.

As transações foram registradas na base de dados do Deutsche Bank e somaram US $ 1,86 bilhão entre agosto de 2014 e setembro de 2015 (o equivalente a pouco mais de R $ 10 bilhões, pela cotação do dólar de quinta-feira, 24 de setembro de 2020). Não há evidências de irregularidades. Também não é possível saber se houve alguma investigação adicional ou qual teria sido a conclusão.

QUEM É PROPRIETÁRIO DO UNIFLEISCH?

Os extratos bancários do dinheiro enviado pela Unifleisch às empresas do Panamá não vazaram para a mídia em 2017 e 2018, quando a JBS estava sob os holofotes por causa da Lava Jato.

Curiosamente, quando alguém lê as 49 páginas do acordo de leniência da JBS com o Ministério Público, assinado em 5 de junho de 2017, o nome Unifleisch não é citado. Na verdade, Lunsville e Valdarco também não aparecem – embora tenham sido mencionados explicitamente nas discussões sobre como o dinheiro da JBS foi desviado para paraísos fiscais. O documento americano com a suspeita em torno da Unifleisch foi feito quase um mês antes do acordo de leniência, em 9 de maio de 2017.

Nos documentos do FinCen, fica muito claro que a relação da Unifleisch com as empresas offshore no Panamá é muito próxima. Eles são engrenagens do mesmo esquema.

FinCen, no entanto, não diz nada categoricamente sobre quem seria o proprietário da Unifleisch. Isso permanece indefinido, como será visto a seguir neste artigo – embora a relação dessa empresa com a JBS seja mais do que conhecida e totalmente pública.

O que chamou a atenção da FinCen nos Estados Unidos foi o fluxo constante de dinheiro da Unifleisch para a costa de Lunsville e Valdarco, no Panamá. A agência financeira do Tesouro dos EUA recebeu um Relatório de Atividades Suspeitas (SAR) elaborado pelo Barclays New York a pedido do mesmo banco na Inglaterra.
Aqui está o que o Barclays NY disse em seu SAR sobre o Unifleisch:

• “A Unifleisch não foi identificada de forma conclusiva por meio de uma pesquisa na internet” (na verdade, a empresa tinha endereço em Londres, mas não esclareceu objetivamente suas atividades nem seus controladores);
• “Foi descoberta uma informação negativa sobre uma contraparte identificada como uma das principais fontes de recursos na conta bancária da Unifleisch” (referência à JBS no Brasil);
• “A Unifleisch possui transações com partes que não estão sujeitas a verificação em jurisdições de alto risco relacionadas à lavagem de dinheiro, especificamente Panamá e Suíça”;
• “Não é clara a relação mantida entre as partes envolvidas nas transações”.
O Barclays continua e apresenta as suas dúvidas:

• “Não há razão econômica, comercial ou jurídica aparente para essas transações” (dinheiro saindo da Unifleisch em Londres e sendo depositado em Lunsville e Valdarco, no Panamá);
• “Os campos das instruções de pagamento para duas transferências relativamente elevadas são preenchidos com a expressão“ contrato de empréstimo ”;
• “Os termos e propósitos do contrato de empréstimo entre a Unifleisch e suas contrapartes são desconhecidos”;
• “A origem dos fundos para a transferência de dinheiro é desconhecida”.
De acordo com o documento FinCen, “essas transferências parecem ser construídas em camadas de um esquema circular na tentativa de enganar ou ocultar a verdadeira fonte dos fundos e / ou sua origem”.

Documentos do FinCen indicam que a Unifleisch Limited abriu uma conta em uma filial do Barclays em Londres em 17 de junho de 2007 e também uma conta correspondente no Barclays New York, nos Estados Unidos. O Barclays marcou as operações da Unifleisch como suspeitas e disparou o alerta para o FinCen – por causa das numerosas transferências para paraísos fiscais.

Trecho do alerta ao FinCen sobre atividade suspeita da Unifleisch, que depositou dinheiro da JBS para Lunsville e Valdarco no Panamá

Existem também duas curiosidades sobre o Unifleisch.

A primeira é que nas referências que a JBS faz à Unifleisch nos documentos entregues ao Ministério Público e à Receita Federal, a empresa é denominada “Unifleisch AS – Reino Unido”. Esse nome não existe nos registros oficiais do Reino Unido – apenas a designação Unifleisch Limited pode ser encontrada.

A outra curiosidade é que o Barclays afirma ter aberto uma conta para a Unifleisch britânica em 17 de junho de 2007. Acontece que os registros oficiais da criação da Unifleisch no Reino Unido são de 11 de setembro de 2007, conforme consta neste documento de incorporação da a empresa. Em outras palavras, pode ter obtido uma conta bancária antes de existir formalmente, o que pode ser apenas um erro formal no relatório do Barclays ao FinCen ou de outra forma a Unifleisch usou seu registro de incorporação existente em outro país (a empresa opera em vários locais na Europa) .

A Unifleisch no Reino Unido, em Londres, foi dissolvida em 26 de dezembro de 2016 (aqui está o documento oficial), apenas no final do ano em que os Batistabrothers enfrentaram dificuldades no contexto da Lava Jato. Primeiro, com a operação Sepse, em julho de 2016. Depois, com Greenfield, em setembro de 2016.

No contrato social, a Unifleisch afirma que a sua principal atividade é “a atividade como sociedade comercial em geral”.

Os nomes dos acionistas e diretores da Unifleisch no Reino Unido não indicam nada: é apenas uma longa lista de pessoas e empresas que também aparecem nos documentos oficiais de centenas de outras empresas, como foi confirmado pelo Poder360. A impressão que fica é que o verdadeiro dono não quis divulgar publicamente quem estava por trás da empresa.

A Unifleisch foi mais generosa com o Barclays, a quem suas próprias atividades foram descritas quando uma conta bancária foi aberta. A empresa disse que Unifleisch atuava como “agente comercial de venda de carnes” e que trabalhava “como representante da JBS SA (JBS), LunsvilleInternational Inc. (‘Lunsville’) e Valdarco Investment Inc. (Valdarco)”.

Para o Barclays, no início, o perfil da Unifleisch “estava em linha com os requisitos de combate à lavagem de dinheiro do Grupo Barclays”.

Como os documentos e relatórios obtidos por este relatório só vão até 2016, no máximo, não há como saber a conclusão da investigação pelo órgão de controle dos Estados Unidos.

É importante destacar que existem outras empresas com o nome Unifleisch (o substantivo “Fleisch” em alemão é “carne” em português e “carne” em inglês). Incluindo um grande na Alemanha (Unifleisch GmbH).

A Unifleisch que atende a JBS é a Unifleisch SA, localizada na via Giacomo e Filippo Ciani, 16, código postal 6900, em Lugano, Ticino, Suíça. Há um funcionário direto das empresas dos irmãos Batista, o zootécnico Juliano Silva Jubileu.

Na internet descobre-se que Lugano é também onde reside um dos representantes legais da Unifleisch – Giuseppe Costantino, um agente fiduciário que empresta o seu nome a 33 firmas totalmente diferentes, que se ocupam de tudo desde a produção de cinema à representação de empresas no as indústrias de confecções e calçados, da fabricação de massas caseiras à gestão de centros de boliche.

Giuseppe Costantino não foi encontrado para comentar este relatório.

Já o zootécnico Juliano Jubileu é muito citado em textos de sites especializados no mercado de carnes. Juliano trabalha para a JBS dentro da Unifleisch. Ele é apresentado como “diretor de exportações da JBS Unifleisch” neste texto de 3 de setembro de 2020, do Canal Rural, que pertence ao Grupo JBS. Em entrevista ao Canal Rural, em vídeo, ele fala sobre Lugano, na Suíça:

“Tem muita gente viajando, alguns casos de Covid-19 que aumentaram aqui na Europa, e isso torna os compradores mais conservadores em relação à tomada de riscos e decisões de compra, mas, no geral, para carne resfriada foi muito positivo, foi muito bom para o Brasil e conseguimos vender muito bem ”.

Nesta entrevista de 3 de setembro, o Canal Rural informa que Juliano deixará o cargo na JBS Unifleisch de Lugano “após 6 anos”, para assumir a operação de vendas da Seara na Europa. A Seara também pertence à JBS.

A JBS foi contatada, mas não quis comentar como a Unifleisch está trabalhando para a JBS hoje. Mesmo assim, com os dados disponíveis, é possível deduzir que pelo menos parte da obra é uma relação comercial aberta para fins de exportação, como sugerem as entrevistas de Juliano Jubileu.

O fato de Jubileu se apresentar como “JBS Unifleisch” indica que o Unifleisch, esse representante de vendas com sede na Suíça, poderia pertencer à JBS? Isso nao esta claro. A JBS foi questionada pelo Poder360 sobre isso e optou por não comentar ou explicar.

Uma coisa é certa: como está na Suíça há 6 anos apresentando-se como JBS Unifleisch, JulianoJubileu deve conhecer detalhes de como essa empresa foi dirigida, instruída ou comandada por seus empregadores a enviar recursos para paraísos fiscais.

FINCEN SEGUE A MÍDIA

Os relatórios da FinCen citam 4 episódios envolvendo a JBS. São fatos noticiados pela mídia brasileira, que serviram de alerta sobre a atuação dos irmãos Batista e de suas empresas.

O primeiro caso citado pelo FinCen é a operação Abate, que em 2009 investigou fiscais de agências de saúde; a segunda é o bloqueio de R $ 73 milhões em Mato Grosso em 2014, por suspeita de que a JBS tivesse recebido benefícios fiscais ilegais; a terceira é a suspeita de favorecimento da empresa em decisões do CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), levantadas pela Operação Zelotes.

O 4º evento foi a investigação de corrupção nos fundos de pensão estaduais que investiam na Eldorado Brasil Celulose, trazida à tona com a operação Greenfield em 2016. Na época, os ativos da empresa foram congelados e os irmãos Batista tiveram que se afastar do conselho da diretores.

Este evento é tratado como o mais sério nos relatórios do FinCen e levou a uma investigação das transações bancárias de 11 membros do conselho da Eldorado e dos conselhos fiscal e de gestão. Os documentos obtidos pelo ICIJ não informam o resultado desta investigação.

Assim como acontece com os relatórios do COAF brasileiro, nem todas as informações contidas nos documentos são indícios de irregularidades ou crimes. A maior parte dos registros envolvendo a JBS trata de seu relacionamento comercial e jurídico com diversos parceiros compradores de carnes brasileiras, em países como Rússia, Cingapura, Holanda, Hong Kong, Venezuela e Uruguai.

Os relatórios da FinCen são fornecidos com as respostas dos setores de conformidade dos bancos às perguntas feitas pela autoridade americana: “Você pode nos fornecer as atividades de negócios principais / secundárias e qualquer outra informação que possa nos ajudar?” Questionado sobre a agência de prevenção ao Banco Santander.

“A JBS é uma das maiores processadoras de alimentos do mundo, produzindo processados ​​de bovinos, ovinos, frangos, suínos e comercializando subprodutos do processamento dessas carnes”, afirmou o banco.

Uma iniciativa semelhante ocorreu quando a FinCen lançou um alerta para transações milionárias entre a JBS e compradores russos. O Banco Sudostroitelny informou, quando questionado: “As transações estão de acordo com a atividade esperada do cliente”.

NOTA J&F

Quando solicitada a falar sobre os relatórios da FinCen, a JBS não comentou. Sua controladora, a J&F, acaba de enviar uma nota. Aqui está o texto completo:

“A J&F reitera que todas as transações financeiras que mereciam ser reportadas às autoridades foram devidamente informadas, em decorrência do acordo de leniência da J&F e dos acordos de colaboração de seus executivos.

“As empresas do Grupo J&F exportam produtos para mais de 190 países no mundo, então é natural que existam centenas de milhares de operações comerciais nos mais diversos continentes. São operações financeiras legítimas, registradas e reportadas conforme determina a legislação local e internacional, gerando até impactos positivos na balança comercial brasileira.

“Qualquer insinuação contrária à sua legalidade é uma afirmação frívola, prejudicial e irresponsável.”

Reportagem nº 2 (Revista Piauí)

Link original em português: https: //piaui.folha.uol.com.br/amiga-oculta-da-jf/

O amigo oculto de J&F – 25 de setembro de 2020, 17h51

A holding dos irmãos Batista não se inscreveu no acordo de leniência Unifleisch SA, representante da JBS na Europa e citada como suspeita de lavagem de dinheiro com documentos do Tesouro norte-americano.

Este relatório faz parte dos Arquivos FinCEN, um projeto conduzido pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, ICIJ. Com base em documentos secretos da FinCEN (Financial Crime Enforcement Network), uma agência do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, a investigação de dezesseis meses revela fluxos de dinheiro ilícito em todo o mundo. O trabalho reuniu mais de quatrocentos jornalistas do ICIJ e mais de 109 veículos de comunicação de 88 países. No Brasil, a revista Piauí, a Épocamagazine e o site Poder360 participam do projeto. A reportagem é da Época, com a colaboração do Poder360.

De frente para o agradável lago de Lugano, na Suíça, o escritório da Talenture SA recebe clientes interessados ​​em contabilidade e consultoria corporativa no país onde é possível ter uma empresa sem que ninguém saiba que você é o proprietário. Giuseppe Costantino, agente fiduciário que ainda empresta seu nome a 33 firmas totalmente diferentes, está lá há 23 anos.

Costantino não é um empresário de sucesso, mas o rosto visível para as autoridades da Unifleisch SA, empresa cuja missão é arrecadar, desde 2002, parte dos lucros das vendas na Europa da multinacional brasileira JBS Friboi, uma das maiores processadoras de produtos de origem animal no mundo. Entre setembro de 2011 e abril de 2016, a Unifleisch, com dono oculto, movimentou US $ 633,9 milhões, o que hoje equivale a R $ 3,48 bilhões (pela cotação do dólar de quinta-feira, 24 de setembro). As informações constam dos documentos secretos da FinCEN, agência do governo dos Estados Unidos para a prevenção de crimes financeiros, que realiza atividades semelhantes às do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) no Brasil. Esses documentos fazem parte dos Arquivos doFinCEN, uma investigação de 16 meses liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e seus parceiros. Os relatórios foram obtidos pelo BuzzFeed News, que os compartilhou com o consórcio. A investigação trouxe desde domingo uma imagem única de dinheiro ilícito que apóia o crime em todo o mundo.

As transações milionárias naquele período não foram suficientes para que o Grupo J&F – acionista controlador da JBS Friboi e maior grupo privado não financeiro do Brasil – incluísse a Unifleisch entre as 363 empresas a ela vinculadas e detalhadas em leniência de seus executivos ou pessoa física acordos. Os acordos foram firmados em 2017 com o Ministério Público Federal, quando a empresa decidiu confessar os crimes às autoridades brasileiras. Na prática, isso significa que o grupo não é obrigado a relatar a origem e o destino das transações milionárias realizadas por seu braço suíço, nem a submetê-las a perícia forense. Com a ausência desta empresa na lista, a J&F também não é necessariamente responsável pelos atos atribuídos à empresa.

Os relatórios da FinCEN fornecem evidências da ligação da empresa com os irmãos Joesley e Wesley Batista, com base em dados coletados pelo banco Barclays. Segundo declarações do gerente do Barclays ao Tesouro dos Estados Unidos, os representantes da conta da Unifleisch junto à instituição, que movimentou cerca de US $ 633,9 milhões entre 2011 e 2016, foram a JBS e duas empresas offshore já reveladas nos acordos de confissão: Valdarco e Lunsville. Os documentos do Barclays atestam o que o gerente do banco disse: “A Unifleisch é instruída pela JBS, Lunsville e Valdarco em todas as ações necessárias a serem tomadas”. O gerente não destacou a interferência de qualquer outra empresa ou offshore na conta bancária da Unifleisch.

Empresas como a Unifleisch são registradas em países onde não há necessidade de identificar os proprietários. Os órgãos oficiais tornam pública apenas a identificação de seus representantes legais – no caso da suíça Unifleisch, Costantino. Em sites e redes sociais, o único funcionário que aparece formalmente vinculado à empresa é o zootécnico Juliano da Silva Jubileu, funcionário da JBS que entre 2010 e 2020 se apresentou como “diretor comercial” e “diretor administrativo” da Unifleisch SA em Lugano , Suíça. Atualmente mora na Holanda, onde ocupa o mesmo cargo na Seara, outra empresa da JBS. Jubileu não retornou contatos para o relatório.

O Grupo J&F não informou por que a Unifleisch não foi mencionada nos acordos de leniência, nem teve todas as transações detalhadas e esclarecidas por seus executivos. O acordo prevê proteção para empresas “direta ou indiretamente” controladas pelo grupo. Em nota, a empresa afirmou que “todas as transacções financeiras do grupo que mereciam ser comunicadas às autoridades foram apresentadas nos acordos”. (Leia a nota completa no final deste artigo).

Um relatório do início de 2017 da FinCEN, anterior aos acordos de colaboração, registrou a inclusão de uma conta Unifleisch no programa de vigilância de lavagem de dinheiro do banco inglês Barclays. A instituição financeira chamou a atenção para a falta de informações básicas sobre a empresa em fontes abertas, como a internet, e cita a existência de um endereço físico da empresa também na Inglaterra, onde ela está registrada como Unifleisch Limited. O documento reporta a ocorrência de “elevado número de transferências bancárias com contrapartes localizadas em jurisdições de alto risco conhecidas por lavagem de dinheiro, especificamente Panamá e Suíça”. Observou-se também que “a relação entre essas partes não era clara” e que “não havia aparente finalidade econômica, comercial ou jurídica para as transações”.

O gerente de contas da Unifleisch no programa Barclays informou que a empresa estava atuando como agente de vendas de carne bovina e derivados, trabalhando em nome da JBS SA e de duas empresas offshore panamenhas: Lunsville International e Valdarco Investment.

Trecho do documento enviado pelo Barclays NY à FinCEN sobre o Unifleisch

O intermediário

O mesmo relatório de 2017 da FinCEN registra que a conta da Unifleisch recebeu instruções das três empresas “para que todas as ações necessárias sejam tomadas”. O gerente do programa de fiscalização interna do banco continuou: “Nesse acordo, a Unifleisch recebe comissão de 3% da JBS pelas vendas geradas”, informou.

A reportagem coincide com o depoimento do ex-diretor da JBS e colaborador Demilton Antônio de Castro ao Ministério Público, gravado em vídeo, no âmbito de seu termo de colaboração. Na ocasião, ele mencionou que as comissões originadas da exportação de carnes foram para essas duas empresas offshore e, posteriormente, para os cambistas e, a partir daí, para as empresas intermediárias de agentes públicos que atendiam aos interesses da empresa.

O que ele não detalhou é que no meio da rota do dinheiro havia um intermediário, a Unifleisch, que além das contas de Valdarco e Lunsville, também fornecia outras contas de origem duvidosa, na interpretação do FinCEN.

A FinCEN listou como suspeitos, por exemplo, pagamentos feitos pela Unifleisch para a conta suíça da Rondo Enterprises Limited, que totalizaram US $ 6,2 milhões, entre 2011 e 2016. O autor da transferência fez apenas uma nota: “pagamento de dividendos”. “A Rondo Enterprises será listada como um SAR suspeito porque sua linha de negócios não foi estabelecida, há uma fonte de recursos desconhecida e um propósito econômico incerto”, observou o documento.

O mesmo aconteceu com um pagamento de US $ 2,07 milhões feito à empresa de Hong Kong Triple Talent Holdings Limited e duas outras transferências, cujos valores não estão mencionados no relatório de 2016, para a Eurocap Consultants and Lawyers Incorporated, da qual os auditores da FinCEN suspeitavam estar sediada no Panamá.

O Eurocap não foi encontrado nos registros públicos desse país. Os representantes das empresas solicitaram o registro de sua marca no Brasil na década de 1990, mas não é possível identificar quem são seus titulares, pois o pedido foi feito por meio de um advogado que trabalhava para um escritório de patentes.

Um dos documentos informa ainda o envio de US $ 2,3 milhões da Unifleisch para uma conta no DMS Bank and Trust em nome do Cainvest International Bank Limited, empresa de investimentos para clientes de alto patrimônio, localizada nas Ilhas Cayman. O relatório regista a aparente legalidade da atividade desenvolvida pela Cainvest, mas mantém a bandeira vermelha para a transação, “devido a preocupações sobre as fontes do recurso”.

A revista Época solicitou esclarecimentos ao Grupo J&F sobre a natureza dos pagamentos mencionados acima, mas a empresa preferiu não comentar especificamente. Reiterou que “todas as transações financeiras do grupo que mereciam ser reportadas às autoridades foram apresentadas nos acordos” e que “as empresas do Grupo J&F exportam produtos para mais de 190 países no mundo, pelo que é natural que haja São centenas de milhares de operações comerciais nos mais diversos continentes ”.

Ainda, de acordo com a empresa, “são todas transações financeiras legítimas, registradas e reportadas na forma da legislação local e internacional, gerando até impactos positivos na balança comercial brasileira”. A J&F conclui: “Qualquer insinuação contrária à sua legalidade é uma afirmação frívola, prejudicial e irresponsável”.

Uma moção enviada ao Ministério Público em agosto de 2017 por um advogado que agia em nome de Joesley Batista que lidava com propina em troca de benefícios do BNDES incluía dois recibos de transferência de US $ 450 mil para Valdarco e Lunsville, em 2011. Mesmo com esses recibos Tendo demonstrado claramente que a Unifleisch era a fonte dos recursos, a empresa optou por não apresentar qualquer aditivo ao acordo de leniência firmado dois meses antes.

Os registros bancários mostram que as offshores Valdarco e Lunsville, mencionadas nos acordos de colaboração, receberam da Unifleisch, entre 2011 e 2016, U $ 297,2 milhões (R $ 1,6 bilhão, segundo a cotação do dólar de ontem). As duas empresas também são listadas como suspeitas de lavagem de dinheiro, pois sua “linha de negócios, objetivo econômico e fonte de recursos” são desconhecidos.

Essas transferências parecem ser construídas em camadas de um esquema circular em uma tentativa de enganar ou ocultar a verdadeira fonte dos fundos e / ou sua origem “, observou o documento do FinCEN no Unifleisch.

As contas brasileiras em poder de qualquer uma das empresas do grupo JBS foram a fonte de 655 transferências para o braço europeu, que totalizou US $ 255,2 milhões entre 2011 e 2015, de acordo com o relatório.

A representação da Unifleisch na Inglaterra foi dissolvida em dezembro de 2016. Assim como a Swiss Unifleisch, a unidade do Reino Unido também tinha representantes legais improváveis: segundo documentos da English Companies House, sua última diretora foi a jovem Nicole Maria Froggatt, 21 na época, também um diretor de 36 outras empresas. Além disso, de acordo com a Companies House, ela substituiu Marie Ann Nash, 67, com 64 empresas registradas em seu nome. Antes dela, o cargo era ocupado por Olivia Rogers, de 20 anos, com 46 empresas sob seu nome.

Surpresa no caminho

A FinCEN fundou a Unifleisch por causa de Chipre, uma ilha onde pouco mais de um milhão de pessoas vivem no leste do Mar Mediterrâneo. Em maio de 2017, a Unidade de Combate à Lavagem de Dinheiro do Chipre pediu ao FinCEN uma pesquisa sobre os registros financeiros e comerciais de Hamid Rezn Seyed Akhavan, um iraniano de 42 anos que vivia nos Estados Unidos e estava sendo investigado como suspeito de fraude e lavagem de dinheiro.

A busca resultou em 105 denúncias de atividades suspeitas, que tratavam de ligações entre Hamid e 12 outras pessoas e 33 empresas. Entre elas estava a inglesa Hamble Corporate Services, consultoria que mantém subsidiárias em diversos países do Oriente Médio e offshore.

Em março de 2013, Hamble pagou à Unifleisch US $ 316.500 por serviços não relatados nos documentos do FinCEN. Esse foi o gatilho para que o órgão de combate à lavagem de dinheiro aprofundasse as relações comerciais e financeiras estabelecidas entre a Unifleisch e as contrapartes suspeitas.

As informações sobre as transações realizadas pela Unifleisch foram constadas no relatório enviado ao Chipre, mas nunca chegaram ao Brasil, segundo membros do Ministério Público que participaram das investigações e também dos acordos de leniência e colaboração.

Representantes da Eurocap, Triple Talent e Rondo Enterprises não foram identificados, portanto não puderam ser encontrados. Também não foram encontradas Nicole Maria Froggatt, Marie Ann Nash e Olivia Rogers. Procurado, Giuseppe Costantino, bem como os representantes da CainvestInternational e da Talenture SA não quiseram comentar.

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