Relatório relaciona operações de JBS, Cargill e Bunge ao desmatamento na Amazônia e Cerrado

Globo Rural

Dez empresas ligadas à cadeia de soja e pecuária foram avaliadas pela organização Mighty Earth durante o período de março de 2019 e novembro de 2020. JBS, Cargill e Bunge são as mais relacionadas ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado, incluindo possíveis desmatamentos ilegais.

De acordo com o estudo Monitor Soja e Gado, durante este período, Cargill e Bunge estão associadas a mais de 61.260 e 38.976 hectares de desmatamento, respectivamente. Já a JBS tem a pior classificação, pois, além da derrubada de árvores associada à cadeia de abastecimento, também não apresentou respostas quando os casos foram identificados e questionados.

Além da classificação das empresas, a Mighty Earth também as relaciona com supermercados nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Países Baixos e França.

“Só no Reino Unido, a Cargill detém uma cota de 70% do mercado de importação de soja brasileira, que entra na cadeia de abastecimento dos supermercados do Reino Unido no formato de ração para animais, através de produtos derivados de frango, porco e produtos lácteos”, aponta trecho do relatório.

A Mighty Earth ainda aponta que 78% das exportações diretas de soja do Brasil para o Reino Unido têm origem no Cerrado e na Amazônia. As exportações diretas de soja dos biomas também representam mais de 50% dos volumes totais do grão brasileiro à França, aos Países Baixos e à Alemanha.

Metodologia

Rankinho do relatório Monitor Soja e Gado (Foto: Reprodução/Mighty Earth)
Ranking do relatório Monitor Soja e Gado (Foto: Reprodução/Mighty Earth)

Em entrevista à Globo Rural, Asha Sharma, diretora da Mighty Earth, explica que o relatório é feito com base em imagens de satélite, incluindo aqueles utilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A organização sobrepõe os alertas de desmatamento do sistema Deter e do World Resources Institute a dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR) nos biomas, acompanhando os índices de desmatamento mensalmente.

Em seguida, relacionam entre 10 e 15 fazendas que mais tiveram áreas desmatadas no mês e possuem forte presença nas cadeias de suprimento às maiores empresas da indústria de soja e frigoríficos. A partir deste cruzamento de informações, há uma classificação das empresas de 0 a 100, com base na extensão de área, gravidade e resposta quanto ao desmatamento.

“Todos os alertas de desmatamento são confirmados usando imagens de satélite de alta resolução, como o Sentinel. Nosso novo Monitor compila todos os casos de desmatamento que tivemos mensalmente nos últimos dois anos e faz um ranking baseado na performance das empresas”, ela explica e complementa que, em relação aos frigoríficos, é feita a conexão entre fornecedor e cadeia por meio de informações da Guia de Trânsito Animal (GTA).

“Provavelmente, os frigoríficos têm dificuldade em verificar os próprios elos da cadeia de abastecimento porque eles ainda não podem rastrear seus fornecedores indiretos e podem apenas rastrear até a fazenda de engorda antes do matadouro. Muitos dos casos de desmatamento que apresentamos estão relacionados às cadeias de suprimentos indiretos dos frigoríficos usando dados do GTA”, afirma a diretora da Mighty Earth.

Contrapontos

Segundo a Cargill, o relatório considera todos os tipos de desmatamento, incluindo o legalmente permitido pelo Código Florestal Brasileiro. Mesmo assim, salienta que possui “mecanismos para proibir o fornecimento não-conforme derivado do desmatamento ilegal” para a cadeia de fornecimento.

Ainda de acordo com a multinacional, deve-se reconhecer a crescente demanda global por soja livre de desmatamento, e o agricultor deve ser inserido neste processo de transformação da cadeia de abastecimento da soja.

“Podemos confirmar que a Cargill não fornece soja de agricultores que desmatam ilegalmente ou de áreas protegidas, e temos a mesma expectativa em relação aos nossos fornecedores”, afirma em nota, ao também defender a implementação total do Código Florestal Brasileiro.

Bunge afirma não adquirir soja de áreas desmatadas ilegalmente, reforçando o compromisso de eliminar o desmatamento de todas as suas cadeias de abastecimento até 2025 e reforça que, em 2020, atingiu 100% de rastreabilidade para compras diretas de fazendas

“Embora o compromisso inclua um prazo definido para 2025, alguns produtores já não fazem mais parte da cadeia de abastecimento, informação que está disponível nos relatórios divulgados pela companhia”, alega a companhia, também em nota.

Para a JBS, o estudo não traz conclusões verdadeiras a respeito da Política de Compra Responsável da empresa. Em nota, o frigorífico defende que “no relatório são apontados como irregulares em nossa cadeia de fornecimento casos de fazendas que sequer estão cadastradas como fornecedoras da JBS. Há casos também em que as fazendas estão localizadas em municípios que sequer temos fornecedores cadastrados”.

A JBS também também destaca que “a metodologia escolhida é irresponsável, na medida em que faz uma correlação entre a concentração de desmatamento, o município e a localização de fábricas. A mera localização não se presta a comprovar qualquer das supostas acusações feita pela ONG.”

 

Incluída no ranking das 10 empresas, a Minerva garante que há 9 mil fornecedores de gado realizadas na Amazônia e 100% das compras são feitas com base em monitoramento, por meio de mapas georreferenciados. A empresa também assegura que as 13 fazendas apontadas pela Mighty Earth como supostamente ligadas à cadeia de fornecimento da Minerva não são fornecedoras diretas da Companhia e não há relação comercial com as propriedades.

O frigorífico admite que uma das possibilidades para melhorar a rastreabilidade dos animais é o uso das Guias de Trânsito Animal, cuja responsabilidade é do Serviço de Inspeção Federal (SIF). “Para isso, é inerente que as indústrias tenham acesso às GTAs, algo que não ocorre hoje”, relata por meio de nota.

“As fazendas foram avaliadas individualmente pelo time de Sustentabilidade da Companhia e da Niceplanet Geotecnologia, fornecedora da tecnologia de mapeamento georreferenciado, e não foram localizados históricos de comercializações com os perímetros informados. É válido reforçar que todas as informações aqui descritas foram compartilhadas com a ONG Mighty Earth”, esclarece a Minerva.

Segundo a Marfrig, também relacionada no ranking da Mighty Earth, a companhia mantém uma rígida política de compra de animais, o que inclui protocolo com critérios e procedimentos para a homologação de qualquer fornecedor. Além disso, a empresa também afirma consultar uma Plataforma de Monitoramento de fornecedores desenvolvida por ela mesma.

“O sistema cruza os dados georreferenciados e documentos das fazendas com informações públicas oficiais para identificar potenciais não conformidades. A área total monitorada equivale a 30 milhões de hectares, um território maior que o estado de São Paulo ou o do Reino Unido”, explica, em nota.

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